segunda-feira, 10 de setembro de 2012

carta para Chico Buarque



ecoa dentro do tempo morto
os primeiros sentimentos
embalados pela música de Chico Buarque

(será que Cristina volta, será que ela quer voltar)


os tios recém casados
a sala apertada do apartamento de subúrbio
as visitas acompanhado
de minha avó
de vestido colorido
ar grave
subindo a ladeira
das pipas
do jogo de bola

atmosfera difícil
de descrever telhados povoados
de antenas de televisão
programa de Flávio Cavalcanti em preto e branco
as canções do volume 02
de Chico Buarque

pudesse então em um encontro falar
desses dias
ouvir o disco na vitrola
sem entender as letras
e ainda assim
ou por ser assim
gostar de cada faixa
trilha sonora dos oitos anos de idade

(sem açúcar e sem afeto)

pudesse em um hipotético
encontro fala coisas banais
das lembranças recuperadas na noite
de Manaus como se ouvisse nitidamente
o chiado do disco
e o violão cantado no realejo a voz de Chico Buarque
misturada aos ruídos
dos tios
de minha avó
da televisão
da ladeira naquela rua
de 1967.


Flávio Machado

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